O medo de dar errado é grande, mas o de dar certo é paralisador.
Mesmo que você não queira que uma situação intencionalmente dê errado, quando você se sabota você faz isso pois não sabe o que irá fazer caso aquilo que você almeja e sonha dê certo.
Sua vida inteira vai mudar caso dê certo, e você sabe disso, um universo completamente novo, situações que você nunca lidou antes, e isso é aterrorizante. Se der certo, um ciclo se acaba, um ciclo viciante de derrotas, que você aprendeu a lidar com o tempo, aprendeu a digerir, aprendeu a sobreviver, e com um sim desse ciclo há um recomeço, é tipo se mudar para uma cidade nova depois de conseguir uma boa oferta de trabalho, consegue analisar todas as possibilidades de um cenário assim?
Se tudo der certo, o único ciclo que você aprendeu a lidar até agora, em que você cai e se levanta sem parar, está morto. Nada do que você viveu até agora te preparou para isso, porque pela primeira vez as coisas funcionam, pela primeira vez o seu esforço é reconhecido, você é reconhecido. E então percebeu que nunca pensou no que aconteceria no pós de atingir seu objetivo, o que vem depois do sucesso? E por não saber a resposta, então récua. E se sabota, e não acredita no seu próprio potencial de viver uma vida plena, então quando você tem a chance de realmente fazer dar certo, você a perde, a estraga.
Enquanto você tiver medo de dar certo, você estará paralisada.
Gabriela Oyara
Eu sinto essa dor, consumido minha carne, me deixando acordada por dias e noites. É como se o inferno estivesse dentro de mim me queimando, e eu já procurei meios dela ir embora, mas ele sempre volta. Eu sinto essa dor que não me deixa pensar, que apenas me toma e não me deixa viver a vida que eu planejei para mim mesma. Os médicos dizem que preciso me cuidar, as pessoas dizem que eu tenho que ter hábitos mais saudáveis. Parei de beber, mal fumo, não tenho comido nada que em teoria me faria mal. Mas a dor não me deixa. Ela me consome e aparece quando ela vem a entender. Dizem que ela é fruto dos meus sentimentos mal resolvidos, mal vividos, mal eternizados.
Como vou externalizar tudo que eu sinto para que eu não sinta mais essa dor? Tudo parece um beco sem saída, quando mais eu corro mais eu caio no buraco negro, quanto mais eu tento mais cansada eu vivo. Estou cansada de viver com dor, queria apenas que parasse de doer. Eu tenho tentado de tudo pra viver sem ela, mas parece que ela não me deixa por mais que eu implore a todos os deuses que conheço, tudo que eu queria era viver sem dor.
E isso é sobre à gastrite, e sobre a dor maior que causa a gastrite.
Gabriela Oyara
O lixo nem sempre foi lixo. Talvez um produto de qualidade duvidosa, mas no início ele era algo. Ele servia. Ele matava a fome momentânea, tapava um necessidade, servia de remendo. Mas inevitavelmente se tornou lixo. Eu sou uma acumuladora de lixo, de coisas que deveriam ter sido jogadas fora, daquilo que não serve mais.
Às vezes eu tenho a plena noção de que o lixo é apenas lixo. Que não importa se um dia ele teve serventia, me fez feliz — ele não tem mais essa função, só está jogado em um canto do meu quarto ocupando espaço, e que mesmo tendo boas memórias afetivas com aquele lixo, ele realmente não serve de nada fora ocupar o espaço que poderia ser de algo novo, ou perfeitamente poderia estar vazio. Mas eu sou uma acumuladora, isso me faz pensar que às vezes, o lixo até pode servir como uma decoração retrô, que eu posso fazer reciclagem e tornar aquele lixo algo novo. E só quando o lixo realmente se mostra um problema maior que a nostalgia que sinto, eu o descarto. Às vezes descarto pensando no potencial do lixo em se tornar algo novo, “se eu tivesse mais tempo” “se eu tivesse mais ferramentas”, às vezes me culpo por ter estragado o produto e transformado ele num lixo, mas se não fosse eu, teria sido outra pessoa. O lixo nem sempre foi lixo, mas uma vez que é, o mais esperto é fazer o descarte e liberar o espaço, para que talvez algo que não estrague com o tempo passe a ocupar.
Gabriela Oyara
Eu não queria que ela morresse, mesmo que todos e tudo gritasse que era hora dela partir.
Eu a amava, apesar de tudo, amava sua inocência, a forma que ela acreditava no melhor das pessoas, mesmo quebrando a cara mais vezes do que o recomendado por ter tanta fé na humanidade e bondade. Quantas vezes ela não caiu por ter essas crenças? E eu a achava ela forte, mesmo que os outros não conseguissem enxergar a força nela, já que ela sempre estava triste, as pessoas não conseguem ver força onde há tristeza, elas acham que forte é aquele que tem o espírito inabalável, apesar das infelicidades e adversidades presentes na sua vida, o que ao meu ver, é loucura.
Eu olho para trás e tenho orgulho dela por sempre ter tentado melhorar, do jeito dela, foi o jeito que ela foi ensinada, foi o jeito que ela aprendeu, ou achava que tinha aprendido com a vida. Quantas vezes ela não chegou perto de morrer? Quantas vezes ela mesma não rezou para que isso acontecesse?
E então, eu cheguei, e quanto mais eu estava, menos ela aparecia, quanto mais vida eu ganhava, mas ela perdia. Mas eu não a matei, eu a deixei viver até que ela não fosse nada mais do que uma memória do passado. E quando isso aconteceu, me senti perdida, se ela não existe mais, quem sou eu? Quem é essa pessoa que escreve e o que eu faço com essa vida? Ela sabia sempre qual o próximo passo, estava acostumada com aquela rotina, mas o que fazer quando mais nada disso é real? Quando tudo muda?
Por meses tentei deixar ela viva em memória, seus hábitos, bons e ruins, seus amores, bons e ruins. Até entender que eu não sou ela, mesmo que já tenha sido um dia. Eu sou algo além, algo que ela sempre quis, mas nunca foi capaz de ser. Ela morreu para que eu nascesse. Ela me criou para que eu a substituísse. Sem raiva, sem ressentimentos, apenas amor. Muito amor, ela me amou antes de eu criar consciência sobre meu ser e entendesse que eu também me amo, e me amo mais que amo ela. E ela está tão orgulhosa do que eu sou, e eu estou tão orgulhosa de ser um produto dela.
Rest in peace, meu antigo eu, obrigada por tudo, eu assumo daqui.
Gabriela Oyara.